Uma senhora forte, de óculos na ponta do nariz, sentada em uma carteira junto a porta da sala, organizava as fichas por ordem de chegada.
Elizabeth dentro da sala esterilizava os matérias hospitalares para atender os pacientes naquela tarde, apesar de fazer tudo com muito cuidado, em sua cabeça os pensamentos se confundiam e ela procurava entender o que estava acontecendo com sua vida, uma voz interrompeu os seus pensamentos:
- Bom dia Elizabeth! - Era Dr. Paulo Maia ,um senhor de meia idade, muito simpático, que atendia com alegria os seus pacientes, Betinha já trabalhava com ele a dois anos e se entendiam bem:
- Bom dia doutor, já está tudo pronto, podemos começar? - Elizabeth queria sair mais cedo, estava preocupada com o pai e pretendia conversar com ele para tranquiliza-lo e fazer como sempre o que ele queria.
- O que houve? Estou achando você preocupada.- perguntou o medico.
- Meu pai não passou bem a noite, mas já está melhor. -
- Só isso mesmo? O doutor não acreditou muito.
- Só, vou pegar as fichas com a atendente. - E saiu, não queria conversar.
A tarde transcorreu tranquila, todos os pacientes foram atendidos e medicados com carinho e ás quatro horas a sala estava vazia, só a moça da faxina fazia a limpeza cantarolando baixinho.
- Você está liberada, vá descansar. - Falou o Dr. Paulo olhando para enfermeira que recolhia as fichas da mesa com rapidez.
- Só vou terminar aqui, e já vou, preciso ver meu pai.- Respondeu Elizabeth sem olhar para o medico.
Chegou em casa mais cedo, abriu a porta e foi direto ao quarto do pai, e para sua surpresa a cama estava vazia, sentiu um aperto no coração e saiu chamado:
- Mariana, onde está você? - Enxugando as mãos no avental, a governanta apareceu:
- O que aconteceu menina? - Mariana estava assustada.
- Onde está meu pai ?- Betinha só pensava no pior.
- Acordou cedo, tomou café e disse que precisava sair. -
-E você deixou ? - Elizabeth estava chateada.
- E eu ia fazer o que? Você conhece Seu Albino, é teimoso e não adiantava nada eu falar.
Elizabeth foi para o quarto tomou um banho, trocou de roupa e voltou para sala.
- Vou trazer um lanche pra você. - Ofereceu Mariana .
- Não estou com fome, vou esperar meu pai lá fora.-Falou Betinha com rosto sério.
O vento balançava as folhas da velha árvore e a brisa do final da tarde provocava uma sonolência, sentada em uma cadeira de balanço fechou os olhos tentando relaxar. Um carro entrou na garagem, era o velho Albino, que vendo a filha tão cedo em casa perguntou surpreso:
- Tudo bem filha? Tão cedo em casa?- O pai parecia sem graça.
- Onde o senhor foi? Pensei que estava doente. - A filha perguntou já de pé.
- Já estou melhor, e fui levar o carro na oficina, por que está com essa cara?- Seu Albino estava sem jeito.
- É estranho! Deixo o senhor de cama, vou trabalhar preocupada, e quando chego em casa o senhor saiu para consertar o carro. - Olhando para o pai, disse com um tom de voz que não costumava usar.
-Não estou entendendo o seu nervosismo quer me explicar?- Seu Albino não gostou do jeito da filha.
- Preciso conversar com o senhor, não estou suportando mais esta situação.-
- Vamos sentar ali, eu quero saber de tudo.- Falou Seu Albino indicando um banco em baixo da árvore.
- Olha pai, desde que perdi meu irmão não tenho feito outra coisa, se não tentar diminuir a dor e a saudade que ele deixou, mas agora quero ser feliz.- Desabafou Betinha.
- O que é que você quer dizer com isso, que não é feliz?- Falou o pai indignado.
- Não se faça de desentendido, o senhor sabe muito bem do que estou falando. Eu tenho o direito de escolher com quem quero casar, vou fazer vinte anos para o mês.-
- Você não gosta de Eduardo? Ele é um ótimo partido, gosta de você, e vai te fazer feliz.- Disse o pai.
- O senhor só pensa em dinheiro, gosto de Eduardo como amigo.- Elizabeth falou.
- Ah! já entendi, você está gostando de outro rapaz .- Falou o pai com ironia.
- Sim, mas pensando do senhor, escrevi uma carta pedindo pra ele se afastar.- Ela falou com tristeza
- Foi melhor assim, um pobre coitado que não tem onde cair morto!.- Seu Albino falou com satisfação.
- Como é que o senhor sabe, mandou investigar?.- Elizabeth já estava desconfiada.
- Claro, eu te amo e só quero o melhor para você filha!-
- Que amor é esse? O amor não é egoísta, pelo contrario pensa na felicidade da outra pessoa.-Sem poder se controlar Elizabeth falou chorando de raiva e ao mesmo tempo tendo pena daquele homem que não entendia nada de amor.
-E você acha que vai ser feliz com um auxiliar de mecânico? Fique sabendo que não vou deixar você fazer essa besteira.- Falou Seu Albino levantando para entrar, mas de repente se voltou e disse:
- Amanhã mesmo vou procurar esse moço, e se ele insistir, vai se arrepender.
- O senhor não pode fazer isso.- Falou Elizabeth segurando o braço do pai.
- Vamos ver! -
Continua.

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